Muitas pessoas pensam que a Campanha da Fraternidade de 2008 é uma campanha contra o aborto. Mas, o objetivo principal da campanha é conscientizar a sociedade a respeito do valor e da dignidade da vida humana. É claro que as pessoas conscientes e convictas do valor de cada vida humana e de sua inviolabilidade são serão necessariamente contra o aborto que é uma forma hedionda de agressão e destruição da vida.
Outro engano que está na cabeça de muita gente é achar que os cristãos defendemos a vida do nascituro, do embrião humano, mas não nos interessamos pela vida da mulher. Entretanto, quando se condena o aborto se está defendendo a vida da mulher que é igualmente agredida e mutilada pelo aborto. Dolorosamente o aborto destrói definitivamente a vida da criança, mas deixa profundas marcas fisicas, psicológicas e espirituais nas mulheres que o praticam. Essas mulheres carregam por longos anos as seqüelas daquela ferida em sua luxúria. Todos os psicólogos sabem e conhecem perfeitamente os traumas que acompanham as mulheres como consequência de um aborto realizado na juventude.
Não se trata somente do peso da consciência moral, mas de uma chaga que não se cura, mas té cresce com novas experiências da própria vida. Quando a mulher que praticou um aborto vem a ter outros filhos e sente a força do amor materno, o carinho e ternura de suas crianças, percebe com imensa dor a perda do filho abortado. Tal 'remorso' não é fruto de formação religiosa. Ele se manifesta em mulheres das mais diversas convicções religiosas e até nas que dizem não crerem Deus e não terem religião.
Por isso, lutar contra o aborto não é lutar somente pela vida do nascituro, mas também pela vida das mulheres que, praticando o aborto, agridem e ferem gravemente seus corpos, suas almas e seus corações.
Também é verdade que a maioria das mulheres que chega a praticar um aborto, não o fazen levianamente, nem sem sofrimentos. O processo que conduz uma mulher a essa prática é parecido ao processo que leva ao suicídio. Face a uma gravidez não desejada, a mulher se encontra muitas vezes abandonada pelo companheiro, rejeitada pela familia, marcada pela discriminação. Sente-se desamparada e sozinha diante de sua vida e de seu futuro. É levada a pensar que não há outra saída senão o aborto. Se o aborto é um crime hediondo, muitas vezes a mulher que o pratica é muito mais vítima de que condenével.
Jesus ensina a condenar o pecado, mas a perdoar, amparar e levantar o pecador. Tratar uma mulher que pratica o aborto simplismente como uma criminosa é agir de maneira anti evangélica. Não se pode condenar para sempre uma vida humana, que pode ser reconstruída e salva pela graça de Deus e a solidariedade fraterna.
Diante de uma mulher ferida pela dor de um aborto, é necessário dizer também: escolhe a vida.
* Dom Celso José Pinto da Silva
Arcebispo Metropolitano de Teresina - PI